Crônicas de um Exilado Linguístico

"Vende-se flores"

Alguns mistérios da língua vivem escondidos nos livros.

Outros ficam expostos na vitrine.

Vende-se flores.

Procura-se casas.

É curioso.

Quanto menos palavras há na placa, maior a probabilidade de uma delas estar em desacordo com as outras.

À primeira vista, a frase parece perfeitamente razoável.

Afinal, alguém vende flores.

Alguém procura casas.

Então por que não vende-se flores ou procura-se casas?

Porque, apesar das aparências, as placas não estão falando de quem vende nem de quem procura.

Estão falando das flores e das casas.

As flores são vendidas.

Portanto, "Vendem-se fores."

As casas são procuradas.

Sendo assim, "Procuram-se casas."

Quem vende e quem procura permanecem discretamente nos bastidores.

É justamente para isso que serve o se.

Não para transformar o verbo em singular.

Mas para manter o responsável convenientemente anônimo.

O problema é que o anonimato costuma gerar insegurança.

O verbo olha em volta.

Não encontra um sujeito logo de imediato.

Entra em pânico.

E escolhe o singular por precaução.

Só depois chegam as flores.

Ou as casas.

Tarde demais.

A concordância já foi impressa.

O mais curioso é que basta inverter a frase para o mistério desaparecer.

Flores vende-se.

Casas procura-se.

Soa imediatamente estranho.

De repente, o plural faz falta.

E isso revela um pequeno segredo da nossa intuição linguística.

Quando o sujeito aparece logo no início, o verbo dificilmente esquece de concordar com ele.

Quando aparece depois, muita gente decide antes da hora.

É a mesma armadilha que produz frases como:

Você não imagina o quanto me incomoda as atitudes dela.

Ou:

Ele não faz ideia do quanto ajuda os conselhos que ele me dá.

O verbo detesta suspense.

Se o sujeito demora a aparecer, ele arrisca um palpite.

E quase sempre aposta no singular.

Da próxima vez que passar por uma placa anunciando "vende-se flores", resista à tentação de culpar o humilde se.

Ele fez exatamente o que lhe pediram.

Quem se precipitou foi o verbo.