Tragam o Trema de Volta
Toda reforma precisa de um bode expiatório.
Há reformas que culpam impostos. Outras, burocratas. Outras ainda elegem alguma classe social como responsável por todos os males do país.
A reforma ortográfica, porém, encontrou um inimigo muito mais modesto.
Dois pontinhos.
O trema.
Durante séculos, ele levou uma existência discreta. Não disputava espaço com os acentos. Não interferia na pontuação. Não pretendia reorganizar a língua. Limitava-se a aparecer sobre um u quando havia uma única informação a transmitir:
"Pronuncie esta letra."
Era difícil imaginar uma função mais específica.
Em lingüiça, o trema lembrava que o u era pronunciado.
Em freqüente, fazia o mesmo.
Em tranqüilo, também.
Era um pequeno manual de instruções embutido na ortografia.
Então alguém concluiu que ele era dispensável.
A justificativa era a simplificação.
A língua ficaria mais simples.
A escrita, mais elegante.
A aprendizagem, mais fácil.
O curioso é que o trema era justamente uma das raras marcas gráficas cuja função qualquer criança conseguia compreender.
Via os dois pontinhos?
Pronunciava o u.
Não havia mistério.
Depois da reforma, decidiu-se que seria mais simples retirar o aviso e confiar que todos soubessem quando o u deveria ser pronunciado e quando deveria permanecer em silêncio.
É uma curiosa definição de simplicidade.
É como retirar as legendas de um mapa e afirmar que agora ele ficou mais fácil de ler.
Naturalmente, alguém responderá que isso nunca causou dificuldade.
Talvez não.
Mas essa não é a questão.
A questão é que a ortografia existe para tornar a escrita mais clara.
Quando ela elimina justamente um sinal cuja única função era esclarecer a pronúncia, é inevitável perguntar em que, exatamente, consistiu o progresso.
Não escrevemos mais depressa.
Não foi exatamente uma revolução na gestão de recursos tipográficos.
Continuamos pronunciando linguiça exatamente como pronunciávamos lingüiça.
A única diferença é que a escrita resolveu guardar essa informação para si.
Dizem que a língua evolui.
Sem dúvida.
Mas evolução e simplificação não são sinônimos.
Às vezes, simplificar significa remover o supérfluo.
Outras vezes, significa apenas remover aquilo que funcionava.
O trema nunca atrapalhou uma palavra.
Nunca criou ambiguidade em frase alguma.
Nunca exigiu do leitor, escritor ou aprendiz um esforço extraordinário.
Pelo contrário.
Era uma das poucas conveniências que a ortografia oferecia gratuitamente.
Talvez não fosse indispensável.
Poucas coisas realmente são.
Mas era útil.
Era claro.
E tinha a rara virtude de explicar alguma coisa em vez de exigir que ela fosse decorada.
Pobres dois pontinhos.
Tão discretos.
Tão prestativos.
E tão pouco recompensados.
Se um dia resolverem trazê-los de volta, dificilmente alguém terá motivos para reclamar.
Afinal, há sinais gráficos cuja ausência aprendemos a suportar.
E há outros cuja falta simplesmente não deveria existir.