Crônicas de um Exilado Linguístico

Réquiem para o Subjuntivo

Há mortes que acontecem de repente.

E há mortes mais lentas, graduais, quase silenciosas.

É o caso do subjuntivo.

Durante séculos, foi um dos instrumentos mais refinados da língua portuguesa. Não servia para ornamentar frases nem para satisfazer gramáticos ociosos. Servia para distinguir o fato da hipótese, a certeza da possibilidade, a realidade da imaginação, o desejo da constatação.

Hoje, porém, vive de aposentadoria.

Ainda faz algumas aparições protocolares, mas já não recebe o respeito de antigamente.

A cada dia surgem novas ocorrências de frases como:

"Espero que ele vem."

"Duvido que ela sabe."

"É importante que vocês fazem isso."

"Quando ele chegar, eu aviso"... ainda resiste.

Mas por quanto tempo?

O subjuntivo está sendo despejado de um contexto após outro. Onde antes havia uma distinção clara entre o real e o possível, instala-se o indicativo como solução universal.

É a política linguística do martelo: se todos os problemas parecem pregos, todas as dúvidas acabam no indicativo.

Nenhum caso, entretanto, é tão emblemático quanto talvez.

Existe, em toda a língua portuguesa, palavra mais explicitamente dedicada à incerteza?

Talvez.

Mas provavelmente não.

Durante gerações, "talvez" e o subjuntivo formaram uma parceria quase indissociável.

"Talvez seja."

"Talvez aconteça."

"Talvez possamos."

Era um casamento perfeito. A palavra anunciava a dúvida; o verbo a incorporava.

Agora, multiplicam-se frases como:

"Talvez é."

"Talvez acontece."

"Talvez ele vai."

É difícil imaginar uma combinação mais irônica.

É como colocar um aviso de "PISO MOLHADO" escrito no chão em tinta escorregadia.

Ou uma placa de "SILÊNCIO" equipada com alto-falantes.

A palavra que anuncia a dúvida passa a ser seguida pelo modo verbal reservado, justamente, para as certezas.

Os defensores dessa tendência lembram, com razão, que as línguas mudam.

Mudam, sim.

Mas nem toda mudança representa um aperfeiçoamento.

Algumas eliminam distinções úteis.

Outras simplificam à custa da expressividade.

Imagine uma língua em que o futuro desaparecesse completamente.

Ou em que o plural deixasse de existir.

A comunicação continuaria possível.

Mas perderíamos ferramentas.

É exatamente isso que acontece quando o subjuntivo vai cedendo terreno.

Cada vez que o indicativo ocupa um contexto em que antes havia uma distinção semântica clara, a língua continua funcionando.

Só funciona com um pouco menos de precisão.

Um pouco menos de delicadeza.

Um pouco menos de sutileza.

O mais curioso é que essa transformação raramente é consciente.

Ninguém acorda e anuncia:

"Hoje decidi abolir o subjuntivo."

Ela simplesmente acontece.

Uma geração ouve um pouco menos.

A seguinte reproduz um pouco mais.

Depois de algum tempo, a construção tradicional começa a soar pedante justamente porque deixou de ser comum.

É o destino de muitas mudanças linguísticas.

Talvez seja também o destino desta.

Ainda assim, não consigo deixar de sentir certa melancolia.

Há algo de extraordinariamente elegante numa língua capaz de sinalizar, por meio de uma simples flexão verbal, que uma ideia pertence ao domínio da possibilidade e não da realidade.

O subjuntivo fazia isso sem alarde.

Discretamente.

Com economia.

Com precisão.

Era um pequeno luxo intelectual embutido na gramática.

Hoje, soa cada vez mais como uma excentricidade.

Talvez eu esteja exagerando.

Talvez o subjuntivo sobreviva por muitos séculos.

Talvez esta crônica envelheça mal e, daqui a cinquenta anos, pareça tão antiquada quanto um lamento pela perda do pronome vós.

Espero sinceramente que isso não aconteça.

Mas, se acontecer, ao menos ficará registrado que houve quem lamentasse sua partida mesmo antes que ela fosse oficialmente declarada.