O Verbo que Recusou o Plural
Há palavras que cedem facilmente à pressão do grupo.
O verbo fazer, quando fala de tempo, não é uma delas.
"Faz dois anos."
A frase vive feliz assim.
Mas basta aparecer um plural e alguém sente que existe uma injustiça a reparar.
"Fazem dois anos."
Parece mais equilibrado.
Mais democrático.
Se existem dois anos, por que deixar o verbo sozinho?
Porque, desta vez, os dois anos não estão no comando.
Estão ali só para indicar quanto tempo passou.
O verbo não está olhando para eles em busca de instruções.
Limita-se a medir o tempo.
E faz isso sozinho.
Faz um dia.
Faz três semanas.
Faz vinte anos.
Faz um século.
A quantidade muda.
O verbo, não.
O mais curioso é que ninguém estranha essa independência quando o verbo é haver.
"Há dez anos."
Quase ninguém sente vontade de escrever "hão dez anos".
Mas basta trocar haver por fazer e surge uma irresistível vontade de distribuir plurais pela vizinhança.
Talvez seja o magnetismo do s.
Ele atrai concordâncias como uma luz acesa atrai insetos.
O verbo vê aquele plural se aproximando e precisa fingir que não é com ele.
E, pela primeira vez na vida, fingir que não viu é exatamente a atitude correta.
Não é falta de educação.
É gramática.
Há uma certa elegância nessa teimosia.
Num idioma em que tantos verbos acabam concordando com qualquer plural que passe pela frente, fazer permanece impassível.
Não negocia.
Não se impressiona.
Não muda de ideia.
Faz séculos que é assim.