O Segundo Emprego de Certo e Errado
No artigo anterior, vimos que melhor e pior escondiam dois comparativos diferentes.
Com certo e errado, o mistério é outro.
Os dois resolveram acumular funções.
Durante o expediente da manhã, trabalham como adjetivos.
À tarde, fazem bico de advérbios.
E raramente avisam quando trocam de turno.
Enquanto exercem o primeiro emprego, tudo parece familiar.
As respostas estavam certas.
As contas estavam erradas.
Aqui, certas e erradas descrevem respostas e contas.
Como bons adjetivos, concordam com elas.
Mas basta a frase mudar ligeiramente de rumo.
As respostas foram respondidas certo.
As contas foram feitas errado.
De repente, já não interessa saber como são as respostas.
Nem como são as contas.
O que está em julgamento é como responderam.
Como fizeram.
E quem descreve verbos não são adjetivos.
São advérbios.
Por isso, certo e errado deixam a concordância no vestiário antes de entrar em campo.
É justamente aí que muita gente estranha.
O cérebro encontra um substantivo feminino.
Depois outro.
Depois um plural.
E pensa:
"Esses dois esqueceram de concordar."
Não esqueceram.
Já estavam trabalhando em outro setor.
Talvez seja essa uma das maiores ironias do português.
As palavras mudam de função.
Mudam de comportamento.
E continuam usando exatamente o mesmo nome.
O leitor é que chega atrasado à troca de turno.