O Mistério do Particípio Desatento
Há frases em que o verbo concorda com o sujeito.
Há frases em que o sujeito nem aparece.
E há frases em que o sujeito aparece, o verbo olha para o outro lado e finge que não o viu.
Tais como:
"Foi identificado erros."
"Foi relatado queixas."
“Foi encontrado falhas.”
É uma construção curiosa.
O particípio entra em cena pela locução verbal já decidido a permanecer no masculino singular.
Custe o que custar.
Pode haver um erro. Pode haver uma falha. Pode haver dez de cada.
Para o particípio, tanto faz.
É sempre identificado.
Sempre relatado.
Sempre encontrado.
A impressão é de que alguém distribuiu uma circular entre os particípios:
"Senhores, por razões administrativas, fica suspensa a concordância até segunda ordem."
O mais injustiçado nessa história é o sujeito.
Além de esperar pacientemente pelo verbo, ainda precisa ouvir:
"Desculpe, não o reconheci."
É compreensível que haja alguma confusão. Afinal, a frase começa pelo verbo e o sujeito vem depois.
Durante alguns milésimos de segundo, o nosso cérebro ainda não sabe quantos erros foram identificados, quantas queixas foram relatadas ou quantas irregularidades foram encontradas.
Mas o cérebro humano, como sabemos, é extraordinariamente eficiente e adaptável.
O particípio, ao que parece, nem tanto.
Ele toma uma decisão precipitada.
Escolhe o masculino singular.
E se recusa terminantemente a reconsiderar, mesmo depois que o sujeito entra pela porta.
Seria o particípio um funcionário público da sintaxe?
Recebe informações novas.
Arquiva todas.
Altera nenhuma.
Mas talvez haja outra explicação...
Fato é que, em algum momento, nos convencemos de que basta começar uma frase por uma locução verbal para que ela pareça mais oficial. Os jornais lançaram a moda. O mundo corporativo homologou a prática.
E funciona.
Pelo menos durante as duas primeiras palavras.
Foi identificado...
Até aqui, tudo inspira confiança — o começo da frase exala competência.
Depois chega a realidade.
“Foi identificado erros.”
A concordância suspira, volta ao início e corrige:
Foram identificados erros.
A frase respira aliviada.
Mas o alívio dura pouco.
“Foi relatado queixas.”
É preciso intervir outra vez:
Foram relatadas queixas.
Nem bem a concordância termina o serviço...
“Foi encontrado falhas.”
E lá vai ela de novo:
Foram encontradas falhas.
Há quem insista em culpar o pobre do sujeito, acusando-o de só dar as caras depois que a locução verbal já desfez as malas e firmou residência no masculino singular.
Mas há também aqueles que, como eu, sentem o ímpeto de interromper a frase:
— Com licença. Talvez vocês não tenham percebido, mas os erros acabaram de chegar.
— Ah! Então eram eles!
Agora, sim: foram identificados. A concordância agradece.