O Império dos Verbos
Há algum tempo, lamentei neste espaço o assassinato das preposições.
Foi uma perda considerável.
Muitas desapareceram sem deixar vestígios.
Outras continuam desaparecendo diariamente.
E quase sempre o culpado é o mesmo.
O verbo.
Ou, mais precisamente, quem resolve ignorar as suas exigências.
Todo verbo tem personalidade.
Uns são modestos.
Aceitam qualquer companhia.
Outros são exigentes.
Não dão um passo sem a preposição de estimação.
Gostar exige de.
Precisar pede de.
Confiar prefere em.
Assistir, quando significa ver, faz questão de a.
Não é capricho.
É regência.
O próprio nome já entrega a ideia.
O verbo rege.
As outras palavras obedecem.
É uma pequena monarquia sintática.
O verbo ocupa o trono.
As preposições fazem a corte.
Os complementos entram apenas quando autorizados.
Mas há quem ache tudo isso excessivamente aristocrático.
E resolva abolir a monarquia.
A primeira vítima costuma ser a preposição.
É um filme que ninguém fala.
O verbo protesta.
Falar... o quê?
Falar... quem?
Não.
Falar de alguma coisa.
Basta devolver a pequena preposição exilada.
É um filme de que ninguém fala.
A paz volta ao reino.
O mesmo acontece com:
É um assunto que ninguém gosta.
Quando, na verdade, o verbo continua esperando pacientemente por ela:
É um assunto de que ninguém gosta.
Ou:
A pessoa que mais confio.
O verbo olha em volta.
Falta alguém.
Mais precisamente, falta em.
A pessoa em quem mais confio.
Até mesmo o inocente precisar sofre do mesmo abandono.
O dinheiro que precisamos.
Pobre verbo.
Passou a vida inteira acompanhado de de.
Bastou chegar ao pronome relativo para perder a companhia.
O dinheiro de que precisamos.
É curioso.
Ninguém escreve:
Eu gosto música.
Nem:
Eu confio você.
Nem:
Eu preciso dinheiro.
A preposição sobrevive enquanto a frase é simples.
Basta aparecer um que, e ela desaparece misteriosamente.
Como se não tivesse recebido autorização para atravessar a fronteira.
Talvez porque o que seja um vizinho expansivo.
Ocupa tanto espaço que muita gente conclui, sem maiores averiguações, que já há palavras suficientes naquela parte da frase.
Não há.
O verbo continua esperando.
E continua esperando exatamente a mesma preposição.
O pronome relativo não muda a constituição do reino.
Apenas muda o endereço do complemento.
No fim das contas, a regência verbal talvez seja menos complicada do que parece.
Os verbos apenas têm preferências.
Alguns gostam de de.
Outros insistem em em.
Há os inseparáveis de com, os apaixonados por a e os que dispensam qualquer intermediário.
Convém respeitá-las.
Afinal, nunca é prudente contrariar um imperador.
Principalmente quando ele tem toda a gramática ao seu lado.