Crônicas de um Exilado Linguístico

O Drama do "Se Caso"

Há palavras que nasceram para trabalhar em equipe.

"Nem... nem."

"Tanto... quanto."

"Ou... ou."

Cada uma faz metade do serviço.

E há palavras perfeitamente capazes de cumprir uma tarefa sozinhas.

Se é uma delas.

Caso também.

Cada uma, individualmente, introduz uma condição sem qualquer dificuldade.

"Se chover, cancelamos."

Perfeito.

"Caso chova, cancelamos."

Igualmente perfeito.

Então surge alguém que, diante dessas duas frases impecáveis, conclui:

"Falta alguma coisa."

E escreve:

"Se caso chover..."

É um momento de extraordinária generosidade sintática.

Duas palavras comparecem ao mesmo expediente para exercer exatamente a mesma função.

Nenhuma delas estava sobrecarregada.

Nenhuma havia pedido reforços.

Mas ambas resolveram aparecer.

É como contratar dois porteiros para abrir uma porta automática.

Ou usar dois cintos para segurar a mesma calça.

O mais curioso é que não existe um equivalente para outras construções.

Ninguém diz:

"Embora apesar de..."

Ou:

"Porque pois..."

Ou:

"Entretanto porém..."

Mas, por alguma razão, se e caso despertam um irresistível espírito de cooperação.

Talvez seja por falta de confiança.

O se pensa:

"Será que consigo deixar claro que isto é uma condição?"

O caso, inseguro, responde:

"Melhor eu ir junto."

No fundo, dá vontade de reuni-los para uma conversa franca.

"Rapazes, agradecemos o entusiasmo, mas a oração subordinada é pequena: só existe uma vaga."

Um deles pode descansar.

Apreciamos a boa vontade, mas insistimos que uma única conjunção subordinativa condicional já basta.