Crônicas de um Exilado Linguístico

O Caso de "Menas"

É difícil não sentir uma certa simpatia por quem diz "menas pessoas".

Não pela palavra.

Pelo raciocínio.

Poucos erros são tão compreensíveis.

Desde cedo, o português nos ensina uma lição que parece não admitir exceções:

Concorde.

O artigo concorda.

O adjetivo concorda.

O pronome concorda.

O verbo concorda.

Depois de uma vida inteira ouvindo isso, alguém encontra pessoas e conclui, com toda a lógica do mundo:

"Menas pessoas".

É um erro.

Mas é um erro que demonstra atenção às regras.

Só que à regra errada.

O detalhe é que menos nunca entrou nesse jogo.

É uma palavra invariável.

Mais precisamente, um advérbio que, em muitos contextos, também funciona como pronome indefinido.

Em qualquer um dos cargos, recusa-se educadamente a mudar de forma.

Menos tempo.

Menos dinheiro.

Menos chuva.

Menos flores.

Menos pessoas.

O mais curioso é que menos nunca demonstrou qualquer vocação para a concordância.

Não concorda com o masculino.

Não concorda com o feminino.

Não concorda com o singular.

Não concorda com o plural.

É, talvez, a palavra mais independente da língua.

E talvez seja essa a verdadeira ironia de "menas".

Ela não nasce do desprezo pela gramática.

Nasce da confiança absoluta de que, no português, tudo precisa concordar.

Justamente diante de uma palavra que passou a vida inteira se recusando, educadamente, a fazê-lo.

No fundo, "menas" não é um erro de quem aprendeu pouco português.

É um erro de quem aprendeu uma regra tão bem que passou a enxergá-la em todo lugar.