Crônicas de um Exilado Linguístico

O Assassinato das Preposições

Há tragédias silenciosas que assolam a língua portuguesa. Não fazem manchetes, não provocam comoção nacional, não derrubam governos. Mas, dia após dia, corroem a estrutura do idioma com a eficiência de um cupim em uma biblioteca.

Uma delas é o desaparecimento da preposição nas orações relativas.

Todos já lemos algo como:

"São problemas que todos terão de arcar."

Não. Não são.

Arca-se com problemas. Arca-se com custos. Arca-se com consequências. O verbo arcar não acordou certa manhã e decidiu emancipar-se de sua preposição. Ele continua exigindo o modesto e trabalhador com, abandonado no acostamento da gramática enquanto o onipresente que segue viagem sozinho.

A construção correta é:

"São problemas com que todos terão de arcar."

Ou, se o escritor ainda nutre algum apreço pela elegância:

"São problemas com os quais todos terão de arcar."

O que se vê, porém, é uma epidemia de amputações sintáticas. A preposição desaparece como se nunca tivesse existido. O que passa a desempenhar uma função impossível, ligando um verbo à distância enquanto ignora solenemente a regência que esse mesmo verbo exige.

O curioso é que isso raramente acontece por economia. A economia seria admirável se eliminasse o supérfluo. Mas aqui elimina-se precisamente o elemento indispensável. É como remover as dobradiças de uma porta para reduzir custos e, depois, perguntar por que ela insiste em cair.

Os defensores da construção argumentam que "todo mundo fala assim". É verdade. Também é verdade que muita gente diz "pra mim fazer", "menas", "os livro" e outras pérolas. A frequência de um erro explica sua existência; não altera sua natureza.

A língua muda? Evidentemente. Sempre mudou e continuará mudando. Mas existe uma diferença entre uma mudança sistemática, que reorganiza a gramática, e uma simples erosão causada pela negligência. Nem toda transformação merece aplausos. Algumas apenas revelam que os falantes deixaram de perceber relações sintáticas outrora transparentes.

O caso das relativas preposicionadas é particularmente triste porque a solução é ridiculamente simples. Não se exige latim. Não se exige filologia. Não se exige uma edição anotada de Camões. Exige-se apenas lembrar que verbos continuam governando preposições, mesmo quando uma oração relativa aparece pelo caminho.

Se se lida com um assunto, escreve-se "o assunto com que lido".

Se se depende de alguém, escreve-se "a pessoa de quem dependo".

Se se confia em alguém, escreve-se "a pessoa em quem confio".

Se se arca com problemas, escreve-se "os problemas com que se arca".

Não é uma convenção arbitrária. É a própria arquitetura da frase.

Talvez o mais lamentável seja que a maioria dos leitores já nem estranhe essas amputações. O ouvido acostumou-se à ausência. A preposição tornou-se um órgão vestigial da norma culta, como se estivesse destinada ao museu ao lado do pronome oblíquo átono e do futuro do presente.

Ainda assim, alguns de nós persistiremos. Continuaremos escrevendo com que, de que, em que, a que, por que e com os quais, não por pedantismo, mas porque acreditamos que as relações sintáticas merecem ser explicitadas quando a gramática as exige.

Afinal, se até os verbos têm direito de escolher suas preposições, talvez devêssemos respeitar suas preferências.

Pobre com. Tão pequeno, tão discreto, tão frequentemente esquecido.

E, no entanto, sem ele, há frases com que simplesmente não se deveria arcar.