Literalmente, Não
Há palavras que nasceram para resolver um problema muito específico.
Literalmente era uma delas.
Sua missão era simples.
Avisar ao leitor ou ao ouvinte que, desta vez, ninguém estava exagerando.
"Ele literalmente quebrou a perna."
Perfeito.
Sabemos que a perna realmente quebrou.
Não é metáfora.
Não é hipérbole.
É gesso.
Mas, em algum momento, literalmente descobriu a liberdade.
Hoje aparece em frases como:
"Eu literalmente morri de vergonha."
"Ela literalmente explodiu de raiva."
"Estou literalmente derretendo."
Se tudo isso fosse verdade, as reuniões de família exigiriam equipes de resgate.
O curioso é que literalmente passou a significar exatamente o contrário do que significava.
Entrava na frase para eliminar qualquer dúvida.
Agora entra para anunciar um exagero.
É como contratar um segurança que só abre a porta para ladrões.
Ou um GPS que evita o destino.
Talvez a culpa seja da própria palavra.
Ela tem um ar tão enfático que muitos falantes sentem vontade de usá-la como quem acrescenta um ponto de exclamação.
Só que um ponto de exclamação, pelo menos, nunca fingiu ser um certificado de autenticidade.
Há algo de comovente na insistência de literalmente.
Mesmo depois de tantos abusos, ela continua aparecendo em cada frase com a esperança de voltar a cumprir sua função original.
É recebida com entusiasmo.
E imediatamente obrigada a testemunhar um absurdo. No ritmo atual, não seria surpresa se, daqui a alguns anos, alguém dissesse:
"Usei literalmente no sentido figurado."
E ninguém visse qualquer problema nisso.
Literalmente.