Crônicas de um Exilado Linguístico

Em Defesa dos Acentos Desaparecidos

Há perdas que fazem barulho.

Outras deixam um vazio difícil de explicar.

É o caso do acento de idéia.

Dizem que ele era desnecessário.

Que a pronúncia continuou a mesma.

Que ninguém deixou de entender a palavra.

Tudo verdade.

Mas há argumentos que vencem um debate.

E há argumentos que apenas encerram a conversa.

O do acento de idéia pertence à segunda categoria.

A justificativa era simples: se já sabemos como pronunciar a palavra, o acento não faz falta.

Seguindo essa lógica, mapas também seriam desnecessários.

Afinal, quem conhece o caminho nunca se perde.

O curioso é que ninguém parecia particularmente incomodado com aquele acento.

Ele não atrapalhava.

Não confundia.

Não ocupava muito espaço.

Era apenas um pequeno traço inclinado, vivendo discretamente sobre a vogal.

Até que um dia decretaram sua aposentadoria compulsória.

O mais triste é que ele nem sequer ganhou uma despedida.

Simplesmente desapareceu.

Ideia.

Assim.

Nua.

Como quem saiu de casa e esqueceu um acessório importante.

Talvez seja nostalgia.

Ou talvez alguns acentos cumpram uma função que nunca apareceu nas gramáticas.

A de dar ritmo ao olhar.

A de emprestar personalidade às palavras.

Há uma diferença difícil de explicar entre idéia e ideia.

A segunda está correta.

A primeira parecia feliz. Plena.

O mesmo aconteceu com assembléia, geléia, platéia, heróico, jóia e tantas outras.

Não perdemos apenas alguns acentos.

Perdemos pequenas excentricidades tipográficas.

Pequenos enfeites que davam ao português um certo charme.

Não, o idioma não ficou pior por causa disso.

Continua perfeitamente capaz de produzir poesia, romances, contratos de locação e mensagens de condomínio.

Mas ficou um pouco mais austero.

Como uma cidade que troca todos os lampiões antigos por luminárias de LED.

Ilumina igual.

Só que ninguém mais quer tirar fotografia.

Talvez um dia alguém proponha trazer esses acentos de volta.

Não porque sejam necessários.

Mas porque alguns luxos tipográficos mereçam existir simplesmente por serem belos.

Até lá, resta-nos uma pequena homenagem.

Sempre que leio ideia, meu cérebro insiste em enxergar idéia.

E, por um breve instante, aquele velho acento volta ao seu posto.

Mesmo que só na minha cabeça.