Basicamente, Nada Disso
Há palavras que nasceram para economizar tempo.
Basicamente era uma delas.
Sua função era nobre.
Avisar ao leitor que viria um resumo.
Uma versão condensada dos fatos.
O equivalente linguístico de um trailer.
Mas, em algum momento, basicamente perdeu o interesse pela concisão.
Hoje costuma anunciar exatamente o contrário.
"Basicamente..."
Respire fundo.
Vêm sete minutos de explicação.
Três parênteses.
Dois exemplos.
Uma digressão histórica.
E, se houver sorte, a resposta à pergunta original.
O curioso é que ninguém desconfia.
O ouvinte escuta basicamente e pensa:
"Ótimo. Agora vem a síntese."
Pobre otimista.
É como entrar numa padaria para comprar um pão e sair com um compêndio de fermentação orgânica.
Em ambientes corporativos, a palavra encontrou seu habitat natural.
"Basicamente..."
É o aviso de que vem uma explicação com organograma.
Há também quem use basicamente como um pedido de desculpas antecipado.
"Basicamente..."
O que vem a seguir não será básico.
Nem breve.
Nem particularmente organizado.
É apenas uma forma elegante de pedir licença para pensar em voz alta.
O mais irônico é que a palavra continua perfeitamente útil.
Quando alguém diz:
"Basicamente, temos duas opções."
Ou:
"Basicamente, foi um mal-entendido."
Ela cumpre sua missão com admirável competência.
O problema é que lhe deram uma promoção.
Agora precisa apresentar qualquer raciocínio, por mais sinuoso que seja.
Basicamente, basicamente deixou de resumir.
Passou a ser o tiro de largada da explicação.
E, convenhamos, isso é tudo, menos básico.