Crônicas de um Exilado Linguístico

As Desventuras do Mim

Há palavras que sabem exatamente qual é o seu papel.

O mim sempre soube.

Veio ao mundo com uma missão bastante modesta.

Receber a ação.

Nunca praticá-la.

Durante séculos, desempenhou essa função com admirável disciplina.

"Trouxeram um presente para mim."

"Disseram isso para mim."

"Tudo aconteceu diante de mim."

Vida tranquila.

Então alguém lhe entregou um verbo.

Para mim fazer.

O pobre mim entrou em pânico.

Fazer?

Eu?

Mas eu nunca fiz nada.

O mim não faz.

Não compra.

Não vende.

Não estuda.

Não viaja.

Não decide.

Não paga.

Não assina.

Não organiza.

Não resolve.

Sempre que aparece um verbo no infinitivo, ele dá um passo para o lado.

Quem assume o trabalho é o eu.

Por isso dizemos:

Para eu fazer.

Para eu estudar.

Para eu viajar.

Para eu resolver.

Para eu decidir.

A regra é surpreendentemente simples.

Se a palavra depois de para vai praticar a ação do verbo, ela precisa vestir a roupa de sujeito.

E sujeito atende por eu.

O curioso é que ninguém diria:

Mim faz o jantar.

Nem:

Mim compra um carro.

Nem:

Mim cheguei ontem.

Todos sentimos, intuitivamente, que alguma coisa está errada.

Mas basta colocar um para na frente e o mim ganha uma autoconfiança inexplicável.

Para mim resolver.

Para mim explicar.

Para mim assinar.

De repente, ele acredita que pode tudo.

Há, no entanto, uma ocasião em que o mim continua perfeitamente inocente.

Quando não faz absolutamente nada.

Este presente é para mim.

Guarde isso para mim.

Trouxeram uma cadeira para mim.

Nesses casos, o verbo pertence a outra pessoa.

O mim apenas recebe os benefícios da ação.

E é exatamente aí que ele se sente em casa.

Talvez o mais injustiçado dessa história seja o próprio mim.

Passou séculos cumprindo fielmente suas atribuições.

Agora vive sendo promovido para um cargo que nunca pediu.

E, convenhamos, administrar verbos nunca fez parte de suas competências.

Deixemos o mim em paz.

O eu faz. O mim deixa fazer.

E ambos vivem muito bem assim.