Crônicas de um Exilado Linguístico

A Reprodução Assexuada do Haver

Há verbos discretos.

Chegam, fazem o seu trabalho e vão embora sem chamar atenção.

E há o verbo haver.

Esse parece ter decidido passar a vida explicando para todo mundo que não tem plural.

Em português, quando significa existir, haver é impessoal.

Não tem sujeito.

E, justamente por isso, não tem plural.

Diz-se:

"Houve problemas."

"Havia dúvidas."

"Haverá mudanças."

Tudo muito simples.

Mas o ouvido humano parece sofrer de um desconforto quase físico diante de um verbo solitário seguido de um substantivo no plural.

"Houve problemas."

Como assim?

Se há vários problemas, o verbo também deveria colaborar.

E, num admirável gesto de solidariedade sintática, nascem:

"Houveram problemas."

“Haviam dúvidas.”

“Haverão mudanças.”

É uma cena comovente.

O falante olha para o substantivo e pensa:

"Coitado. Está sozinho no plural."

E decide que o verbo tem de lhe fazer companhia.

A gramática protesta.

O falante ignora.

O espírito de solidariedade fala mais alto.

No fundo, houveram, haviam e haverão partem de um raciocínio perfeitamente lógico.

Durante toda a vida aprendemos que o verbo costuma concordar com o sujeito.

Depois aparece uma construção em que não existe sujeito algum.

É pedir demais que o cérebro aceite isso sem reclamar.

Então ele faz o que sabe fazer.

Procura um substantivo.

Encontra problemas, dúvidas, mudanças.

Declara:

"Está decidido. Achei o sujeito."

E conjuga o verbo em concordância com o objeto direto.

É um pequeno ato de justiça gramatical.

Infelizmente, em favor da pessoa errada.

Talvez devêssemos parar de tratar o pobre haver como um verbo antissocial.

Ele não se recusa a concordar.

Apenas não tem com quem.

Não há sujeitos nessas orações.

Nunca houve.

Com certeza, jamais houveram.