Crônicas de um Exilado Linguístico

A Ordem dos Fatores Altera, Sim, o Produto

Há frases que exigem paciência.

Não por serem difíceis.

Mas porque resolvem esconder o sujeito.

O Hino Nacional sabe disso melhor do que ninguém.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante.

Durante décadas, milhões de brasileiros cantaram esses versos sem a menor noção de quem ouvira o quê.

Até o dia em que um benfeitor da sintaxe resolveu prestar um grande serviço à nação e reorganizou as palavras.

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Nenhuma palavra foi substituída.

Nenhuma foi acrescentada ou eliminada.

A única mudança foi a ordem.

E, de repente, o português deixou de parecer um caça-palavras.

Isso acontece porque, ao contrário da matemática, a ordem dos fatores altera, sim, o produto.

Quando o sujeito resolve entrar apenas no fim da frase, o cérebro não gosta de esperar.

O verbo gosta menos ainda.

Ele detesta suspense.

Basta aparecer uma frase como:

Você não imagina o quanto me incomoda...

Até aqui, tudo parece perfeitamente normal.

O verbo já fez sua escolha.

Optou pelo singular.

Então chegam …as atitudes dela.

Um segundo tarde demais.

O mesmo acontece aqui:

Ele não faz ideia do quanto ajuda...

O verbo, confiante, segue em frente.

Só depois entram em cena …os conselhos que ele me dá.

A concordância já fechou a conta.

É uma armadilha surpreendentemente comum.

Não porque as pessoas desconheçam a regra.

Mas porque ninguém gosta de deixar uma decisão em aberto.

O sujeito demora.

O verbo improvisa.

Às vezes acerta.

Às vezes precisa fingir que não ouviu o plural entrando na sala.

Basta inverter a ordem e o feitiço desaparece.

As atitudes dela me incomodam mais do que você imagina.

Os conselhos que ele me dá ajudam muito.

De repente, ninguém hesita.

O sujeito apresenta-se logo na entrada.

O verbo espera educadamente.

E a concordância transcorre sem incidentes.

Talvez a gramática tenha apenas uma lição a nos ensinar.

Antes de tomar uma decisão, convém esperar que todos cheguem à reunião.

Principalmente o sujeito.