A Longa Viagem Até um Verbo Simples
Há frases que vão direto ao ponto.
“Vamos ligar para você amanhã de manhã.”
Ou, se preferir um toque mais formal:
"Ligaremos para você amanhã de manhã."
Seis palavras.
Um verbo.
Missão cumprida.
Depois existe o português corporativo.
Nele, ninguém liga.
As pessoas vão estar ligando.
É uma construção admirável.
Parte do verbo ir, faz escala obrigatória em estar e só então chega, exausta, ao verbo que realmente interessa.
É um voo com duas conexões para atravessar a rua.
O mais curioso é que o telefone toca exatamente no mesmo horário.
A única coisa que demora mais é a frase.
Talvez exista uma explicação.
Quem diz "ligaremos" ou ”vamos ligar” assume um compromisso.
Quem diz "vamos estar ligando" parece estar apenas descrevendo uma possibilidade administrativa em processo de eventual materialização.
É o futuro do indicativo envolto em plástico-bolha.
Tudo fica mais distante.
Mais cauteloso.
Mais... corporativo.
Dá vontade de responder:
"Perfeito. Quando vocês terminarem de ir estar ligando, eu vou estar atendendo."
Ou, quem sabe, simplifiquemos a operação.
Vocês ligam.
Eu atendo.
E todos chegamos ao fim da conversa com dois verbos a menos e exatamente a mesma informação.