Crônicas de um Exilado Linguístico

A Enigmática Vida Dupla do Tu

O pronome chama-se tu.

O verbo chama-se vais.

Durante séculos, tiveram uma relação estável.

Então, em algumas partes do Brasil, o tu resolveu continuar morando na frase, mas o verbo decidiu mudar de endereço.

Passou-se a dizer:

"Tu vai."

É uma construção fascinante.

O sujeito entra na frase anunciando:

"Boa tarde. Sou a segunda pessoa do singular."

O verbo olha para ele, encolhe os ombros e responde:

"Para mim, você é a terceira."

É como chamar alguém pelo nome e, logo em seguida, tratá-lo pelo nome do vizinho.

O mais admirável é que ninguém parece se incomodar.

O tu continua comparecendo diariamente ao trabalho.

O vais, dispensado sem maiores explicações, foi substituído por vai, que aceitou o cargo sem fazer perguntas.

Talvez seja o mercado de trabalho mais flexível da gramática portuguesa.

A única profissão em que alguém pode apresentar um currículo de terceira pessoa e ser contratado para exercer funções de segunda.