Crônicas de um Exilado Linguístico

A Emancipação do Se

Há palavras modestas.

O artigo.

A preposição.

A conjunção.

E há o pronome reflexivo se.

Pequeno. Discreto. Trabalhador.

Durante séculos, conheceu perfeitamente o seu lugar.

Eu me atraso.

Tu te atrasas.

Ele se atrasa.

Nós nos atrasamos.

Era uma vida organizada.

Cada pessoa com seu pronome.

Cada pronome com seu dono.

Então alguma coisa aconteceu.

Ninguém sabe exatamente quando.

Mas, em algum momento da história recente, o se resolveu emancipar-se.

Rompeu todas as amarras.

Ignorou concordâncias.

Abandonou as antigas hierarquias.

E passou a aparecer em qualquer lugar que lhe parecesse minimamente interessante.

Hoje ele surge, confiante, em frases como:

"Vamos se encontrar."

A primeira vez que ouvi essa construção, imaginei que faltava alguém.

"Vamos..."

Quem?

"Nós. Se encontrar."

Quem exatamente? Nós vamos encontrar... quem?

A resposta da gramática tradicional é simples.

Se o sujeito é nós, o pronome é nos.

Sempre foi.

Sempre funcionou.

"Vamos nos encontrar."

Mas o português brasileiro, esse espírito tão livre quanto criativo, que jamais deixa uma regra em paz, parece ter desenvolvido outra teoria.

Para quê tantos pronomes?

Me. Te. Se. Nos. Vos.

Que desperdício.

Escolhe-se um.

O mais simpático.

O mais versátil.

O mais popular.

O se.

E pronto.

Resolve-se a vida inteira.

Daqui a pouco teremos:

"Eu se lembro."

Você se lembra.

"Nós se lembramos."

Todo mundo se lembra.

Uma notável democratização dos pronomes.

Igualdade absoluta.

Todos recebem exatamente o mesmo tratamento.

É difícil não admirar a eficiência.

Imagine o alívio dos estudantes estrangeiros.

Cinco pronomes reflexivos?

Não mais.

Agora basta decorar um.

O se tornou-se o canivete suíço da gramática.

Serve para tudo.

É reflexivo.

É apassivador.

É índice de indeterminação.

É conjunção.

E, quando sobra um espacinho, ainda substitui alegremente me, te, nos e quem mais estiver de folga.

Os gramáticos, naturalmente, entram em desespero.

O falante, naturalmente, continua dizendo:

"Vamos se ver qualquer dia desses."

"Vamos se encontrar nas férias."

Aliás, eis outra ironia.

Quem diz "vamos se encontrar" quase nunca percebe qualquer estranheza.

Mas experimente responder:

"Ótimo. Eu vou adorar se encontrar com você."

De repente, alguma coisa soa errada.

O ouvido protesta.

Existe, afinal, um limite.

Ainda bem. No fundo, porém, talvez estejamos assistindo ao nascimento de um novo sistema.

O português brasileiro sempre gostou de simplificar paradigmas.

Fez isso com tu em boa parte do país.

Praticamente aposentou vós.

Reduziu boa parte das flexões verbais.

Quem sabe agora tenha decidido promover o humilde se a pronome reflexivo universal.

Se for esse o plano, resta apenas um pedido.

Que alguém avise o pobre nos.

Ele merece saber por que deixou de ser convidado para os encontros.

Ou melhor...

Para as ocasiões em que vamos nos encontrar.

Enquanto ainda há tempo.