A Armadilha dos Comparativos Homônimos
Há erros que nascem da ignorância.
Outros, da pressa.
Este nasce de um engano de identidade.
Pouca gente percebe que existem dois melhor.
E dois pior.
São escritos da mesma maneira.
Pronunciam-se da mesma maneira.
Mas desempenham funções completamente diferentes.
O primeiro melhor é o comparativo de bom.
O primeiro pior, o comparativo de mau.
São adjetivos.
Vivem em função dos substantivos.
Por isso concordam.
Os melhores restaurantes.
As melhores ideias.
Os piores argumentos.
As piores notícias.
Até aqui, tudo é previsível.
Mas existe outro melhor.
E outro pior.
Desta vez, são os comparativos de bem e mal.
Não descrevem substantivos.
Descrevem a maneira como algo acontece ou o estado em que algo se encontra.
Em outras palavras, pertencem ao universo dos verbos.
E advérbios não concordam.
É por isso que dizemos:
As crianças estão melhor.
As estradas ficaram pior depois da chuva.
As coisas estão melhor.
É justamente nesse momento que acontece a confusão.
O cérebro vê crianças, estradas, coisas.
Todos os substantivos estão no plural.
Então conclui, quase por instinto, que melhor e pior também deveriam estar.
As crianças estão melhores.
As estradas ficaram piores.
Só que esses comparativos pertencem ao outro departamento.
São os comparativos dos adjetivos bom e mau.
Não os dos advérbios bem e mal.
O paradoxo é que o erro não nasce da falta de gramática.
Nasce justamente do contrário.
Reconhecemos uma regra verdadeira.
Mas identificamos o comparativo errado.
É um raro caso em que a gramática nos engana usando duas palavras idênticas.
No fundo, não é um problema de concordância.
É um problema de identidade equivocada.
Os comparativos são iguais por fora.
Só exercem funções diferentes por dentro.
E talvez essa seja a mais elegante das armadilhas que o português já inventou.